Pirataria no Brasil: como identificar produtos falsificados?

Pirataria no Brasil: como identificar produtos falsificados?

Mercado ilegal provocou perdas estimadas em R$ 473,2 bilhões em 2025. Entenda os sinais de alerta nas compras on-line e saiba quais são os direitos do consumidor.

A pirataria no Brasil atingiu níveis recordes em 2025. As perdas provocadas pelo mercado ilegal chegaram a cerca de R$ 473,2 bilhões, enquanto a venda de produtos falsificados avança também no ambiente digital.

Antes esse comércio estava associado principalmente a camelôs e fronteiras físicas. Hoje os consumidores encontram produtos falsificados a poucos cliques de distância. Eles aparecem em marketplaces, redes sociais e outras plataformas digitais e, muitas vezes, ficam misturados a mercadorias legítimas. Por isso, identificar uma falsificação antes da compra nem sempre é simples.

O problema ganhou dimensão crescente nos últimos anos. Além do impacto sobre empresas e arrecadação pública, a pirataria pode trazer prejuízos diretos ao consumidor. Acontece, especialmente quando envolve produtos como cigarros, bebidas, eletrônicos, cosméticos e medicamentos.

Pirataria no Brasil causou prejuízo de R$ 473,2 bilhões

Em 2025, o mercado ilegal provocou um prejuízo estimado de R$ 473,2 bilhões no Brasil. Desse total, cerca de R$ 326,3 bilhões correspondem a perdas diretas da indústria. Outros R$ 146,8 bilhões estão relacionados a tributos que deixaram de chegar aos cofres públicos.

Os dados fazem parte de um levantamento do Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNCP), que reúne informações de 15 setores produtivos da economia.

Além disso, o estudo revela um crescimento expressivo do problema. Em 2020, a perda estimada somava R$ 288 bilhões. Portanto, em cinco anos, o valor aumentou 64%, o equivalente a mais de R$ 180 bilhões.

O avanço também aparece na internet. Em 2025, o Conselho Nacional de Combate à Pirataria e Crimes contra a Propriedade Intelectual (CNPC) identificou e reportou mais de 7.900 sites irregulares à Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI).

Segundo a advogada Amanda Ramalho, sócia do AMR Advogados, três fatores ajudam a explicar a expansão do mercado ilegal: preços mais baixos, baixa percepção de risco e grande alcance das vendas digitais.

Como identificar um produto falsificado?

Em muitos casos, o consumidor só percebe que comprou um produto falsificado depois de receber a mercadoria. Ainda assim, alguns sinais podem ajudar a identificar uma oferta suspeita antes da compra.

Preço muito abaixo do praticado no mercado, falta de nota fiscal, ausência de informações sobre fabricante ou importador e anúncios sem rastreabilidade estão entre os principais alertas.

No caso dos cigarros, por exemplo, Amanda recomenda atenção à origem do produto, ao selo fiscal, à embalagem, às advertências sanitárias, à regularidade do fabricante e à emissão de nota fiscal.

A especialista também destaca que alguns segmentos exigem cuidado maior por envolverem riscos não apenas financeiros, mas também à saúde e à segurança.

Como evitar produtos falsificados em compras on-line

Antes de concluir uma compra, observe estes sinais:

  • Preço muito abaixo do mercado: ofertas excessivamente baratas podem indicar irregularidade;
  • Vendedor sem histórico ou com muitas reclamações: pesquise a reputação antes da compra;
  • Ausência de nota fiscal: desconfie de vendedores que não fornecem o documento;
  • Problemas na embalagem: erros gráficos, lacres frágeis ou selos inconsistentes podem indicar falsificação;
  • Falta de dados do fabricante ou importador: verifique se essas informações estão disponíveis;
  • Ausência de registro, homologação ou certificação: alguns produtos precisam obrigatoriamente dessas autorizações;
  • Fotos genéricas ou falta de rastreabilidade no anúncio: imagens que não mostram claramente o produto também exigem atenção.

Comprei um produto falsificado. O que fazer?

Mesmo com todos os cuidados, o consumidor pode descobrir a falsificação somente depois da compra. Nesse caso, é importante reunir provas da transação.

Segundo Amanda Ramalho, o primeiro passo é guardar a nota fiscal e o comprovante de pagamento. Além disso, vale salvar prints do anúncio, da página do produto e das conversas com o vendedor, quando existirem.

Em seguida, o consumidor deve procurar a plataforma ou o fornecedor e informar o problema. De acordo com a especialista, o Código de Defesa do Consumidor (CDC) protege quem recebe um produto impróprio, inadequado ou diferente daquele anunciado.

“O Código de Defesa do Consumidor protege a pessoa contra produto impróprio, inadequado ou que não corresponda à oferta. Também há responsabilidade objetiva do fornecedor na cadeia de consumo, nos termos gerais do CDC”, explica.

Conforme o caso, o consumidor poderá pedir troca, restituição do valor pago ou cancelamento da compra. Além disso, poderá registrar uma reclamação ou denúncia em órgãos e canais de defesa do consumidor, como o Procon e o consumidor.gov.br.

Combate à pirataria digital exige ação conjunta

O avanço das falsificações pela internet também tornou o combate à pirataria mais complexo.

No Brasil, o CNPC, vinculado à Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, desenvolve ações voltadas ao enfrentamento da comercialização de produtos ilegais.

No início de 2026, o órgão definiu as principais iniciativas do Plano Quadrienal 2026–2029. Entre as prioridades estão justamente o combate à pirataria no ambiente digital e o fortalecimento do papel do consumidor.

Para Amanda Ramalho, no entanto, retirar páginas ou anúncios do ar não basta.

“[A pirataria] não se controla apenas com retirada de sites. O combate efetivo exige atuação combinada entre Estado, plataformas digitais, titulares de marca, meios de pagamento, anunciantes e provedores de internet”, afirma.

Uma das estratégias envolve a cooperação entre o CNPC e a OMPI, estabelecida em 2020. O acordo utiliza a plataforma Brip para compartilhar dados sobre sites suspeitos e tentar reduzir fontes legítimas de receita dessas páginas, como publicidade.

Na prática, segundo Amanda, o enfrentamento passa por monitoramento automatizado, denúncias qualificadas, retirada rápida de anúncios, bloqueio de domínios reincidentes e cooperação com meios de pagamento.

Além disso, é necessário identificar vendedores que atuam de forma recorrente.

Por que é tão difícil retirar produtos falsificados da internet?

A escala do comércio eletrônico representa um dos principais obstáculos.

Entre os desafios, Amanda cita o volume massivo de anúncios, empresas que alteram CNPJ, conta ou nome, uso de fotografias de produtos originais para vender falsificações e anúncios impulsionados em redes sociais.

A logística pulverizada também dificulta a fiscalização. Ao mesmo tempo, muitas situações exigem prova técnica para demonstrar rapidamente que determinado produto é falso.

Outro problema está no intervalo entre a denúncia, a análise do caso e a efetiva retirada do anúncio.

“Por isso, a simples retirada de um anúncio não resolve o problema. É necessário identificar padrões, reincidência, origem do estoque e fluxo financeiro”, afirma a advogada.

Eletrônicos estão entre os produtos mais falsificados

O tamanho desse mercado também aparece nas apreensões realizadas pelas autoridades.

Em junho de 2025, a Receita Federal apreendeu cerca de 140 mil eletrônicos falsificados provenientes da China, no Porto do Rio de Janeiro. O órgão estimou o valor dos produtos em R$ 10 milhões.

Entre os itens estavam 79 mil controles de videogame, 25 mil videogames, 5,6 mil minigames portáteis, 26 mil TV Sticks e 5 mil caixas de som.

Os eletrônicos estão entre os produtos mais atingidos pela falsificação no país. Segundo Amanda, a lista também inclui cigarros, bebidas, vestuário e calçados, cosméticos, medicamentos, autopeças, conteúdo audiovisual e serviços ilegais de streaming.

“Esses setores sofrem porque têm alta demanda, margem atrativa, forte apelo de marca e, em alguns casos, alto custo regulatório”, explica.

Como funciona o combate à pirataria on-line

Para Amanda Ramalho, uma estratégia eficiente de combate à pirataria digital precisa combinar diferentes frentes:

  • Mapeamento: identificar onde produtos ou marcas aparecem ilegalmente;
  • Monitoramento: acompanhar marketplaces, redes sociais, sites, domínios e anúncios pagos;
  • Produção de provas: salvar prints, URLs, dados do vendedor, notas fiscais e informações sobre embalagens;
  • Notificação: acionar plataformas, vendedores, meios de pagamento ou serviços de hospedagem;
  • Retirada: solicitar a exclusão do anúncio ou o bloqueio da página;
  • Controle da reincidência: manter histórico de vendedores e outros infratores;
  • Atuação aduaneira: cadastrar marcas e representantes em sistemas como o SCP, da Receita Federal;
  • Medidas judiciais: recorrer, quando necessário, a ações como busca e apreensão e pedidos de indenização;
  • Educação do consumidor: ampliar a informação sobre os riscos da pirataria para a saúde, a segurança e a economia formal.

Dessa forma, o combate à pirataria deixa de depender apenas da retirada de produtos individuais da internet. Diante de um mercado que muda rapidamente de endereço, identidade e canal de venda, identificar redes, reincidências e fluxos financeiros se tornou parte essencial do enfrentamento.

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