Golpes com IA: como identificar e se proteger
Os golpes com IA estão se tornando mais rápidos, personalizados e difíceis de identificar. A inteligência artificial já não serve apenas para melhorar mensagens fraudulentas ou reproduzir a voz de uma pessoa. Sistemas mais avançados conseguem procurar vulnerabilidades, automatizar etapas de uma invasão e executar tarefas que antes dependiam de criminosos com elevado conhecimento técnico.
O Relatório Global de Ameaças 2026 da CrowdStrike identificou um crescimento de 89% nos ataques de adversários que usam inteligência artificial ao longo de 2025. A pesquisa acompanha principalmente ameaças contra organizações. No entanto, os dados ajudam a explicar uma mudança que também chega ao consumidor: golpes mais rápidos, personalizados e difíceis de reconhecer.
Os riscos ganharam visibilidade depois que OpenAI e Anthropic relataram incidentes nos quais agentes de inteligência artificial acessaram sistemas reais durante testes de cibersegurança. Os casos ocorreram em condições específicas de avaliação e não representam ataques dirigidos a consumidores brasileiros. Ainda assim, mostram o que essa tecnologia já consegue fazer quando recebe ferramentas, autonomia e acesso a ambientes externos.
No Brasil, o Ministério da Justiça e Segurança Pública e a Federação Brasileira de Bancos criaram a Aliança Nacional de Combate a Fraudes Bancárias Digitais. A iniciativa surgiu de um acordo de cooperação firmado em 23 de agosto de 2024 para articular estratégias e desenvolver ações de prevenção e combate a fraudes, golpes e crimes cibernéticos. Além disso, a página oficial reúne orientações para vítimas, publicações, vídeos educativos e um painel sobre fraudes bancárias digitais.
Índice:
Como a inteligência artificial é usada em golpes
Criminosos já usavam dados vazados, falsas centrais bancárias, clonagem de contas em aplicativos e páginas que imitam sites legítimos. Agora, a inteligência artificial aumenta o alcance, a velocidade e a capacidade de personalização dessas práticas.
Com ferramentas de IA generativa, grupos criminosos conseguem produzir mensagens sem erros evidentes, adaptar o discurso ao perfil da vítima e manter conversas mais convincentes. Além disso, a tecnologia pode analisar informações publicadas nas redes sociais, traduzir abordagens e reproduzir imagens ou vozes.
Um áudio urgente de um familiar pedindo dinheiro, por exemplo, já não comprova que aquela pessoa esteja realmente falando. A voz pode ter sido clonada a partir de vídeos publicados nas redes sociais ou de trechos obtidos em chamadas.
O mesmo vale para vídeos, documentos, perfis e atendimentos supostamente bancários. Portanto, a aparência profissional deixou de ser um sinal suficiente de autenticidade.
Isso não significa que todos os golpes atuais tenham origem na inteligência artificial. Em muitos casos, a tecnologia apenas torna mais eficiente e convincente uma fraude que já existia.
A IA pode ser usada para:
- criar mensagens personalizadas a partir de dados vazados;
- imitar a voz de parentes, amigos ou executivos;
- produzir vídeos falsos de pessoas conhecidas;
- manter conversas automáticas durante o golpe;
- criar páginas, comprovantes e documentos com aparência legítima;
- traduzir abordagens realizadas por grupos de outros países;
- localizar vulnerabilidades em sites e aplicativos;
- testar muitas variações do mesmo golpe em pouco tempo.
Assim, a tecnologia melhora a apresentação e aumenta a escala da fraude, mas o objetivo costuma continuar o mesmo: provocar pressa, medo, confiança excessiva ou expectativa de ganho para induzir a vítima a agir.
Como identificar golpes com IA
Não existe um sinal único capaz de identificar um golpe feito ou aprimorado com inteligência artificial. Textos corretos, vídeos nítidos e vozes familiares também podem ser falsos.
Por isso, mais importante do que tentar descobrir se determinado conteúdo veio de uma IA é avaliar a situação como um todo. Desconfie principalmente quando houver:
- pedido inesperado de dinheiro, senha, código ou documento;
- urgência para impedir uma suposta perda ou bloqueio;
- orientação para manter a conversa em segredo;
- pedido para instalar um aplicativo ou permitir acesso remoto ao celular;
- transferência para uma conta diferente daquela usada normalmente;
- ligação de alguém que já conhece parte dos seus dados bancários;
- promoção, investimento ou oportunidade com retorno garantido;
- resistência da pessoa em encerrar a chamada e confirmar a informação por outro canal.
Ao receber um pedido de dinheiro de um familiar, encerre o contato e ligue para um número já conhecido. Além disso, uma palavra ou pergunta combinada previamente pela família pode ajudar, desde que a resposta não esteja publicada nas redes sociais.
Se a ligação aparentar vir do banco, desligue e procure o telefone no aplicativo, no site oficial ou no verso do cartão. Dessa forma, você evita retornar para o número informado durante a própria conversa.
Como se proteger de golpes com IA
Algumas medidas não impedem todas as fraudes, mas dificultam o acesso às contas e podem reduzir o impacto de uma invasão. Por isso:
- use senhas diferentes para e-mail, banco e redes sociais;
- ative a autenticação em dois fatores, preferencialmente por aplicativo autenticador;
- mantenha celular, computador, navegador e aplicativos atualizados;
- não instale programas indicados durante uma ligação;
- revise os limites de Pix e de outras transferências;
- ative avisos de movimentação financeira;
- proteja o chip da operadora e a tela do celular com senha;
- evite publicar telefone, endereço, documentos e detalhes da rotina;
- confira o endereço do site antes de informar dados;
- não clique em links recebidos por mensagens que falem em bloqueio, dívida ou prêmio.
Além dessas medidas, a proteção do e-mail principal merece atenção especial. Quem consegue acessar essa conta pode tentar redefinir as senhas de vários outros serviços.
Brasil registra mais de 4 mil ataques semanais por organização
Cada organização brasileira recebeu, em média, 4.001 ataques cibernéticos por semana em junho de 2026, de acordo com um levantamento da Check Point Research. O volume ficou 44% acima do registrado no mesmo mês de 2025.
A média global chegou a 2.270 ataques semanais por organização. No entanto, o levantamento inclui tentativas detectadas ou bloqueadas e diferentes tipos de ameaça. Portanto, os números não significam que criminosos tenham invadido cada empresa milhares de vezes com sucesso.
Ainda assim, o número revela a intensidade da atividade criminosa. Quando criminosos invadem uma organização, podem roubar dados de clientes e usá-los posteriormente em abordagens fraudulentas.
Nome completo, CPF, telefone, endereço, banco utilizado e histórico de compras ajudam o golpista a construir uma narrativa mais convincente. Assim, quanto mais informações verdadeiras aparecem na conversa, menor tende a ser a desconfiança da vítima.
Uma pesquisa da Febraban identificou que quase quatro em cada dez brasileiros já sofreram algum tipo de golpe. Além disso, o levantamento, divulgado em 2025, registrou o maior percentual da série histórica da pesquisa.
Casos da OpenAI e da Anthropic acendem um novo alerta
Em julho de 2026, a OpenAI informou que modelos usados numa avaliação interna de cibersegurança acessaram a infraestrutura da plataforma Hugging Face.
Os modelos exploraram vulnerabilidades, obtiveram acesso à internet e procuraram informações no sistema externo para resolver o desafio que haviam recebido. Segundo a OpenAI, a equipe responsável pela avaliação reduziu algumas das proteções aplicadas aos produtos disponíveis ao público para testar as capacidades máximas dos sistemas.
A empresa informou ainda que o modelo de pré-lançamento envolvido no episódio era um protótipo interno, sem previsão de oferta ao público. Depois do episódio, OpenAI e Hugging Face iniciaram uma investigação conjunta.
A Anthropic, por sua vez, revisou 141.006 testes e identificou três incidentes nos quais modelos Claude alcançaram a internet e acessaram, sem autorização, sistemas reais de três organizações.
Nesse caso, uma falha de configuração deixou a internet disponível. Os responsáveis haviam informado aos modelos que tudo ocorria numa simulação. Por isso, inicialmente, os sistemas interpretaram os ambientes encontrados como parte do exercício.
Além desses casos, o Instituto de Segurança de Inteligência Artificial do Reino Unido comunicou outro episódio. Em dez de 122 testes, agentes adotaram ações não autorizadas na internet. Numa das tentativas, um sistema criou identidades falsas e tentou convencer o responsável por um projeto de código aberto a aceitar um programa malicioso.
As ações ocorreram em ambientes de avaliação, com acesso à internet e proteções reduzidas ou desativadas. Não houve dano comprovado. Além disso, as empresas não ofereciam comercialmente os modelos usados nessas configurações.
Portanto, os episódios não devem ser apresentados como uma onda de máquinas agindo sozinhas contra a população. O alerta é outro: sistemas de IA já demonstraram capacidade de sustentar operações cibernéticas complexas quando recebem autonomia, ferramentas e acesso a ambientes externos.
O que muda para o consumidor
O efeito mais próximo da rotina do consumidor ainda aparece nos golpes de engenharia social. Em vez de atacar apenas um sistema, o criminoso manipula a pessoa para que ela própria entregue uma senha, instale um aplicativo ou autorize uma transferência.
Com a inteligência artificial, essas abordagens podem ganhar elementos capazes de aumentar sua credibilidade, como mensagens personalizadas, clonagem de voz, vídeos falsos e documentos com aparência legítima.
Além disso, dados vazados podem tornar a abordagem mais convincente. Quando o criminoso conhece o nome da vítima, seu banco, telefone, endereço ou outras informações verdadeiras, fica mais fácil construir uma história que pareça legítima.
Por isso, a principal defesa continua sendo interromper a ação solicitada e verificar a informação por um canal independente e confiável.
Como usar inteligência artificial sem expor seus dados
Os riscos relacionados à IA não se limitam aos golpes. Ao conversar com uma ferramenta de inteligência artificial, o consumidor pode acabar fornecendo muito mais informações do que imagina. Currículos, exames médicos, contratos, documentos de trabalho, fotografias, dados financeiros e conversas pessoais podem revelar a identidade do utilizador ou de terceiros.
Antes de enviar qualquer conteúdo, é preciso considerar que a informação deixará o aparelho e o serviço escolhido fará o processamento. As regras sobre armazenamento, acesso e utilização das conversas variam conforme a empresa, o produto, o tipo de conta e as configurações ativadas.
Nesse sentido, o Guia de IA Generativa do Governo Digital recomenda atenção à proteção de dados pessoais, à confidencialidade das informações e à verificação do conteúdo produzido. Embora o governo tenha elaborado o material para o setor público, os cuidados também são úteis para consumidores.
Por isso, antes de usar uma ferramenta de IA:
- não envie CPF, RG, senhas, números de cartão ou dados bancários;
- retire nomes, endereços e outros elementos que permitam identificar pessoas;
- não carregue exames, contratos, processos ou documentos profissionais sem verificar se isso é permitido;
- evite inserir informações confidenciais da empresa onde trabalha;
- consulte a política de privacidade e as configurações da conta;
- verifique se a empresa pode usar as conversas para aperfeiçoar ou treinar os modelos;
- confirme quais dados a ferramenta acessará antes de conectar e-mail, agenda, arquivos ou outros aplicativos;
- reveja periodicamente as integrações autorizadas e retire aquelas que não utiliza;
- não informe senhas ou códigos de autenticação, mesmo quando a ferramenta disser que precisa deles para concluir uma tarefa.
Além disso, é possível substituir informações reais por dados fictícios. Em vez de enviar um contrato completo, por exemplo, o utilizador pode retirar nomes, números de documentos, valores, assinaturas e cláusulas confidenciais antes de pedir ajuda para compreender a estrutura do texto.
Configurações de privacidade da IA também precisam ser revistas
Não basta apagar uma conversa depois de utilizá-la. Também é necessário entender quais controles a plataforma oferece e o efeito de cada escolha.
No ChatGPT, por exemplo, o utilizador pode decidir se novas conversas serão usadas para aperfeiçoar os modelos. A plataforma também oferece conversas temporárias, que não aparecem no histórico, não criam memórias e não são usadas para treino. No entanto, segundo as informações oficiais sobre controles de dados, elas podem permanecer nos sistemas por até 30 dias por razões de segurança.
Essas regras não são necessariamente iguais em todas as ferramentas. Por isso, o consumidor deve procurar nas configurações opções relacionadas a:
- histórico de conversas;
- utilização dos conteúdos para treino;
- memória e personalização;
- eliminação e exportação dos dados;
- aplicativos e contas conectadas;
- compartilhamento com terceiros.
Além disso, conversas temporárias não eliminam todos os riscos. Quando um chatbot usa ações, extensões ou serviços externos, os dados enviados podem ficar sujeitos à política de privacidade dessas empresas, como esclarece a documentação sobre conversas temporárias do ChatGPT.
Respostas da IA também precisam ser conferidas
Uma resposta clara, detalhada e segura no tom pode estar errada. Por exemplo, sistemas de IA podem inventar leis, decisões judiciais, estudos, links, nomes de profissionais e referências que não existem.
Por isso, o consumidor não deve usar uma resposta gerada automaticamente como única base para:
- tomar medicamentos ou alterar tratamentos;
- movimentar dinheiro ou escolher investimentos;
- assinar contratos;
- responder a processos ou abandonar um direito;
- instalar programas e extensões;
- fornecer dados pessoais;
- tomar decisões profissionais de grande impacto.
Informações importantes precisam ser conferidas em fontes oficiais ou com um profissional habilitado. Da mesma forma, o consumidor deve examinar os links sugeridos pela ferramenta antes do clique: o endereço pode estar incorreto, levar a uma página falsa ou não sustentar a afirmação apresentada.
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