Crianças, brinquedos e consumo: como equilibrar?

Crianças, brinquedos e consumo: como equilibrar?

Os pais e responsáveis podem ensinar as crianças sobre consumo consciente, além de adicionar na rotina atividades que estimulam a criatividade

Na infância, o ato de brincar assume um papel fundamental no desenvolvimento das crianças. De acordo com um estudo de 2024 publicado na plataforma Revista Acadêmica Online, essa prática entre os pequenos contribui para a formação de aspectos como o social, cultural, cognitivo, afetivo, emocional, entre outros. Com isso, a inclusão de brinquedos nessa fase precisa considerar alguns cuidados, como comprar produtos de maneira consciente e adicionar na rotina brinquedos que estimulam a criatividade.

Quando se trata de consumo consciente, é importante que os pais e responsáveis ensinem essa prática para as crianças. Monica Recusani, especialista em Psicopedagogia Clínica e Institucional e diretora adjunta de comunicação da Associação Brasileira de Psicopedagogia – Seção São Paulo (ABPp-SP), destaca que esse ensinamento começa com exemplos em casa. “As crianças observam os adultos, então, se os pais consomem [produtos] de forma crítica e moderada, elas tendem a internalizar esse comportamento”.

A especialista acrescenta que outro passo é ter conversas francas e adequadas à idade sobre o valor de produtos, como os brinquedos, e a diferença entre “precisar” e “querer”. Além disso, vale explicar sobre os impactos ambientais de um consumo exagerado.

No meio desse processo, planejar-se para comprar um brinquedo é fundamental. A psicopedagoga Monique Gonçalves explica que esse planejamento envolve aspectos como: observar as reais necessidades da criança, definir um orçamento para a compra e pensar na função educativa do produto. “Além de ajudarem a evitar compras em excesso, esses fatores auxiliam no próprio desenvolvimento da criança”.

Ainda, a profissional comenta sobre a importância de observar a idade e adquirir itens que condizem com a faixa etária certa, pois isso favorece a formação de cada fase dos pequenos ao longo da infância.

Monica complementa que excessos podem ser evitados quando os adultos estabelecem limites transparentes e refletem sobre o propósito da compra, com questionamentos como: “Esse brinquedo é educativo?”, “esse brinquedo estimula a imaginação?”, “esse brinquedo estimula a socialização?”.

“Além disso, é importante evitar o uso do consumo como recompensa constante, pois isso pode criar uma relação distorcida com os bens materiais”, ressalta.

Vale envolver as crianças nas decisões de compra?

Conforme as especialistas, vale, sim, incluir as crianças nas decisões de compra. Monica destaca que, com orientação, essa prática é uma forma de promover autonomia e senso de responsabilidade.

Mas como isso pode ser feito adequadamente? Monica diz que os pais e responsáveis podem oferecer um valor fixo para a criança escolher um item. Além disso, ajude-a a refletir sobre as opções por meio de comparações e análises, como: “Esse brinquedo parece divertido, mas esse outro pode durar mais tempo”.

Monique reforça que em meio às decisões de compra, é importante ensinar às crianças a valorizar o que elas já possuem. “Nem sempre é preciso comprar um determinado brinquedo, porque há outros que podem ser usados”, aponta.

Ainda, a especialista ressalta que os pais podem explicar o porquê das decisões e ensinar as crianças a lidar com frustrações, pois nem sempre é possível comprar algo.

Assim, a psicopedagoga também destaca que o consumo consciente vai além da economia. “Essa é uma forma de educar para a responsabilidade. É mostrar que o cuidado não é só consigo mesmo, mas também com o outro e com o nosso planeta”.

O que fazer com brinquedos que deixaram de ser usados?

Quando um brinquedo deixa de ser usado, a doação desses itens é uma solução. Aliás, Monica orienta a realização dessa prática com as crianças antes da compra de um produto novo, como uma forma de “reforçar o valor do que se tem e o respeito ao próximo”. Além disso, a profissional complementa que essa é uma boa oportunidade para ensinar o desapego e evitar desperdícios.

Para isso, a especialista em Psicopedagogia Clínica e Institucional indica que os pais e as crianças podem selecionar os brinquedos em desuso que estejam em bom estado e, juntos, decidirem para onde doar. “Essa ação promove o senso de responsabilidade social e reforça valores importantes como solidariedade, gratidão e cuidado com o outro”.

Monique acrescenta que outra opção é reaproveitar o brinquedo que a criança não quer mais brincar. “A partir de um brinquedo ou de um jogo, é possível inventar outras brincadeiras, dando um novo significado ao produto”, diz. “Quando a criança faz esse reaproveitamento, ela também está trabalhando uma flexibilidade cognitiva, pois está resolvendo uma situação-problema”.

Como introduzir brincadeiras que não envolvam a compra de um produto?

Brincadeiras simples e com materiais acessíveis podem ser incluídos no dia a dia das crianças (Foto: Freepik).

Brincadeiras simples e com materiais acessíveis podem ser incluídos no dia a dia das crianças (Foto: Freepik).

No estudo publicado na plataforma Revista Acadêmica Online, os pesquisadores citaram que o psicólogo Fernando Barroco Zanluchi destacou que, por meio das atividades lúdicas do brincar, a criança começa a entender como as coisas funcionam no mundo físico e social.

Com isso, vale introduzir na rotina dos pequenos outras maneiras de brincar, sem que esse ato esteja necessariamente relacionado às compras. Nesse caso, Monique cita brincadeiras com materiais simples do dia a dia, como caixa de papelão, panos com texturas diferentes e utensílios. “Esses objetos estimulam a criatividade e promovem o processo de desenvolvimento”, destaca.

“Também há as brincadeiras corporais, como amarelinha e pular corda, que trabalham as habilidades de lateralidade [capacidade de diferenciar direita e esquerda] e de noção espacial, que são importantes, inclusive, para a alfabetização”, comenta.

Monica complementa o incentivo da criação de histórias, encenações teatrais improvisadas ou construção de brinquedos com sucata. “O brincar livre, sem roteiro nem brinquedo pronto, estimula aspectos cognitivos, sociais e emocionais de forma intensa”, diz. Ela também cita brincadeiras de faz de conta e jogos com elementos da natureza – como pedras, folhas e gravetos –, além de atividades com materiais recicláveis.

Benefícios de brincar usando a criatividade

Desenvolvimento da autonomia, capacidade de resolução de problemas e flexibilidade cognitiva socioemocional são alguns dos efeitos positivos das brincadeiras que usam a criatividade, ao invés de produtos comprados, como aponta Monique.

Ainda, Monica adiciona que brincadeiras que partem da criatividade permitem que a criança seja protagonista do próprio processo de aprendizagem. “Ela cria regras, explora possibilidades, improvisa e exercita a resolução de problemas”, reforça. “Isso desenvolve funções executivas como planejamento, autocontrole, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva, fundamentais para o sucesso acadêmico e social”.

Ela também pontua: “Ao contrário dos brinquedos muito estruturados, que oferecem respostas prontas, o brincar criativo abre espaço para a imaginação e para o desenvolvimento integral”.

“O brincar é a linguagem da infância. Mais importante do que o brinquedo em si é o tempo e a qualidade das interações proporcionadas por ele”, comenta Monica. “Criar ambientes lúdicos, ainda que simples, é uma poderosa forma de estimular o desenvolvimento infantil e fortalecer vínculos”.

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